Como aproveitar todos os subprodutos do biodigestor para gerar valor na propriedade rural

Em uma pequena fazenda leiteira, produzir biogás e digestato não significa, por si só, que todos os recursos provenientes do biodigestor estejam sendo aproveitados. Parte do biogás pode não encontrar utilização compatível, enquanto o digestato pode ser produzido em quantidade superior àquela efetivamente manejada pela propriedade.

Por isso, avaliar o aproveitamento dos produtos da biodigestão exige olhar além daquilo que o sistema produz. É necessário identificar quanto está disponível, quanto realmente recebe uma destinação útil e onde existem excedentes ou limitações.

Essa análise permite localizar oportunidades de melhoria sem atribuir automaticamente valor a tudo o que sai do biodigestor.

Identifique os recursos que realmente saem do sistema

A digestão anaeróbia gera dois produtos principais: o biogás e o digestato.

O biogás contém metano e pode ser utilizado como combustível em aplicações compatíveis. O digestato corresponde ao material remanescente após o processo de digestão e pode apresentar potencial de aproveitamento agronômico, desde que suas características e condições de utilização sejam adequadamente avaliadas.

Não confunda digestato com frações separadas

Dependendo da configuração existente na propriedade, o digestato pode passar posteriormente por processos de separação sólido-líquido ou outros tratamentos.

Nesse caso, podem existir frações com características e destinos diferentes.

Porém, essas frações não devem ser apresentadas como produtos obrigatórios de todo biodigestor. Se a propriedade não realiza separação ou processamento posterior, o diagnóstico deve considerar o digestato nas condições em que efetivamente deixa o sistema.

Diferencie produção, aproveitamento e excedente

Um dos principais cuidados é não considerar toda quantidade produzida como recurso efetivamente aproveitado.

Se determinado volume de biogás está disponível, mas apenas parte dele encontra utilização, existe diferença entre produção e aproveitamento.

A mesma lógica pode ser aplicada ao digestato.

Para cada recurso, procure responder:

  • quanto foi disponibilizado no período;
  • quanto foi efetivamente utilizado;
  • qual foi sua destinação;
  • quanto permaneceu sem aproveitamento previsto.

Essa separação transforma uma descrição genérica dos benefícios do biodigestor em um diagnóstico da propriedade.

Calcule a taxa de aproveitamento de cada recurso

Quando existirem medições ou registros confiáveis, uma relação simples pode ajudar:

Taxa de aproveitamento (%) = quantidade efetivamente utilizada ÷ quantidade disponível × 100

Imagine, por exemplo, que durante determinado período tenham sido disponibilizados 600 m³ de biogás e que 480 m³ tenham sido efetivamente utilizados em uma aplicação monitorada.

Nesse caso:

480 ÷ 600 × 100 = 80%

A taxa de aproveitamento registrada seria de 80% naquele período.

O indicador deve ser calculado separadamente para cada recurso, utilizando dados referentes ao mesmo intervalo e unidades compatíveis.

Não estime aquilo que não consegue medir adequadamente

Nem toda pequena propriedade possui medidores capazes de determinar com precisão a produção e o consumo de biogás.

Quando não houver dados confiáveis, é melhor registrar a limitação do que criar valores aproximados sem base adequada.

O mesmo cuidado vale para o digestato. Registros de volume, massa ou outra unidade devem seguir o método de controle realmente utilizado pela propriedade.

Monte um mapa de aproveitamento do biodigestor

Uma tabela simples permite visualizar onde estão os recursos subaproveitados:

RecursoDisponível no períodoEfetivamente utilizadoDestinoExcedente
BiogásRegistrarRegistrarIdentificarCalcular
DigestatoRegistrarRegistrarIdentificarCalcular
Fração separada, se houverRegistrarRegistrarIdentificarCalcular

O quadro não serve para atribuir automaticamente valor econômico aos produtos. Sua função é mostrar o fluxo real de aproveitamento.

Se houver excedente significativo em determinada linha, o produtor terá identificado um ponto que merece investigação.

Analise o destino antes de considerar que houve geração de valor

Um recurso somente deve ser tratado como aproveitado quando existe uma destinação real e compatível.

No caso do biogás, isso significa diferenciar o volume disponível daquele efetivamente consumido em uma aplicação.

Para o digestato, a existência do material também não demonstra automaticamente substituição de fertilizantes ou benefício econômico.

Seu uso agronômico depende de fatores como composição, necessidades das culturas, características do solo, quantidade aplicada e recomendações técnicas pertinentes.

Portanto, produção, utilização e benefício econômico são três conceitos diferentes.

Passo a passo para localizar recursos subaproveitados

Registre os produtos existentes

Identifique biogás, digestato e eventuais frações provenientes de tratamentos posteriores realmente presentes na propriedade.

Escolha um período de avaliação

Utilize um intervalo representativo e mantenha o mesmo período para comparar disponibilidade e utilização.

Registre quanto ficou disponível

Utilize medições ou controles existentes para determinar a quantidade de cada recurso.

Identifique quanto foi utilizado

Considere apenas a parcela que recebeu destinação efetiva durante o período.

Registre o destino

Indique onde e como o recurso foi aproveitado, evitando classificações genéricas como “usado na fazenda”.

Determine o excedente

Compare a quantidade disponível com aquela efetivamente utilizada.

Investigue a causa do subaproveitamento

Um excedente pode estar relacionado à falta de demanda, incompatibilidade entre produção e horário de utilização, limitações de armazenamento, manejo ou outras condições específicas.

Identificar a causa deve ocorrer antes de decidir por novas aplicações.

Não crie novos usos apenas para eliminar excedentes

Encontrar um recurso subaproveitado não significa que qualquer nova utilização será vantajosa.

Uma aplicação adicional pode exigir equipamentos, infraestrutura, manutenção, mão de obra ou alterações operacionais.

Por isso, o excedente funciona primeiro como sinal para investigação, e não como justificativa automática para novos investimentos.

Cada alternativa deve ser analisada considerando as condições técnicas e econômicas da propriedade.

O valor está no recurso efetivamente aproveitado

Aproveitar todos os produtos do biodigestor não significa criar o maior número possível de aplicações. Significa compreender o que o sistema realmente disponibiliza e encontrar destinações adequadas para aquilo que pode ser utilizado com segurança e finalidade definida.

Separar disponibilidade, utilização e excedente permite enxergar situações que uma simples lista de benefícios não mostraria.

Com registros consistentes, a pequena fazenda leiteira consegue identificar onde o biodigestor já está sendo bem aproveitado e onde ainda existe potencial não utilizado.

Dessa forma, o foco deixa de ser apenas “o que o biodigestor produz?” e passa a ser uma pergunta mais útil para a gestão da propriedade: “quanto daquilo que produzimos realmente está sendo transformado em recurso útil?”

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