O que muda na gestão da fazenda quando a energia passa a ser produzida internamente

Quando uma pequena fazenda leiteira depende exclusivamente da eletricidade adquirida da rede, grande parte da gestão energética está concentrada no consumo. O produtor acompanha contas, organiza o funcionamento dos equipamentos e procura controlar quanto de energia utiliza.

Quando parte da energia passa a ser produzida internamente com o biogás, surge uma nova responsabilidade. Além de consumir, a propriedade passa a administrar também um recurso energético que possui disponibilidade, limitações e condições próprias de funcionamento.

Essa mudança exige acompanhar geração, consumo, disponibilidade de biogás, manutenção e horários de utilização. Portanto, produzir energia dentro da fazenda não elimina a necessidade de gestão energética. Na prática, acrescenta novas decisões à rotina.

A propriedade passa a administrar geração e consumo

Antes da geração própria, a principal preocupação operacional está relacionada à quantidade e ao momento em que a eletricidade é consumida.

Com um sistema de geração a biogás, passa a existir outra variável: quanto de energia pode ser produzido e em quais condições essa geração estará disponível.

Produção e necessidade elétrica nem sempre apresentam o mesmo comportamento. Por isso, conhecer apenas o consumo mensal ou a capacidade nominal do gerador não é suficiente para organizar a operação.

Disponibilidade não significa utilização automática

A existência de biogás ou de capacidade instalada de geração não demonstra que toda a energia potencial será efetivamente aproveitada.

O gerador pode operar apenas em determinados períodos, a disponibilidade de combustível pode variar e as cargas elétricas da fazenda possuem horários próprios.

A gestão passa, portanto, a observar a compatibilidade entre esses elementos antes de considerar determinada quantidade de energia como realmente disponível para utilização.

O biogás passa a fazer parte do planejamento operacional

Quando utilizado para geração elétrica, o biogás deixa de ser observado somente como produto do biodigestor e passa a integrar o planejamento energético.

Alterações na disponibilidade do gás podem repercutir na quantidade ou no tempo de funcionamento do conjunto motogerador.

A fazenda precisa compreender essa relação para não planejar determinada operação considerando uma disponibilidade energética que talvez não esteja presente naquele momento.

Registros passam a conectar etapas diferentes

Informações sobre o biodigestor, o gerador e o consumo elétrico deixam de ser completamente separadas.

Uma redução da geração elétrica, por exemplo, pode exigir investigação em diferentes pontos. A causa pode estar relacionada à disponibilidade ou às características do biogás, ao equipamento de conversão ou às condições de operação.

Essa visão integrada é uma das principais mudanças na gestão.

A programação das atividades ganha uma nova variável

Ordenha, resfriamento do leite, bombeamento e outras operações possuem necessidades e horários próprios.

Quando existe geração interna, o produtor passa a considerar também quando essa energia estará disponível.

Isso não significa alterar indiscriminadamente a rotina produtiva para acompanhar o gerador. Algumas operações possuem horários ou exigências que não podem ser deslocados apenas por conveniência energética.

A mudança está em incluir a disponibilidade da geração entre as informações utilizadas no planejamento diário.

A manutenção passa a interferir na disponibilidade energética

Em um sistema baseado somente no fornecimento externo, a propriedade não realiza manutenção nos equipamentos responsáveis pela geração da eletricidade fornecida pela rede.

Com geração própria, parte dessa responsabilidade passa para dentro da fazenda.

Biodigestor, condicionamento do biogás, tubulações, conjunto motogerador e componentes auxiliares precisam funcionar dentro das condições previstas para o sistema.

Parada programada também precisa entrar no planejamento

Manutenção não deve ser tratada apenas quando ocorre uma falha.

Quando uma intervenção programada exigir a indisponibilidade temporária do gerador, a propriedade precisa saber quais operações poderão ser afetadas e quais alternativas estarão disponíveis.

Assim, o calendário de manutenção passa a conversar com a rotina produtiva.

Os registros precisam mostrar mais do que kWh gerados

A quantidade de eletricidade produzida continua sendo importante, mas isoladamente não explica o funcionamento do sistema.

A propriedade pode acompanhar período de funcionamento do gerador, energia efetivamente produzida, destino dessa energia, ocorrências operacionais e indisponibilidades relevantes.

Também é útil registrar alterações importantes na rotina da fazenda, pois mudanças no rebanho, nos equipamentos ou nos horários de operação podem modificar a demanda elétrica.

Não é necessário criar dezenas de indicadores. O objetivo é possuir registros suficientes para compreender por que o desempenho mudou e apoiar decisões posteriores.

Passo a passo para adaptar a gestão à geração interna

Defina quem acompanha o sistema

Estabeleça quem será responsável pelos registros e verificações rotineiras.

Registre a geração

Utilize os instrumentos disponíveis para acompanhar a eletricidade efetivamente produzida.

Relacione geração e utilização

Identifique quando e onde a energia produzida está sendo aproveitada.

Registre as indisponibilidades

Anote paradas programadas, falhas e outras ocorrências capazes de interferir na geração.

Integre a manutenção ao calendário

Considere as intervenções previstas antes de organizar operações dependentes da geração própria.

Compare períodos representativos

Utilize registros de diferentes períodos para distinguir alterações recorrentes de situações excepcionais.

Produção própria não elimina a necessidade de alternativas

Gerar eletricidade dentro da propriedade não significa necessariamente possuir fornecimento próprio suficiente em todos os momentos.

A disponibilidade dependerá da configuração do sistema, do combustível, do equipamento e da estratégia de operação.

Por isso, a gestão precisa conhecer antecipadamente o que acontecerá quando a geração interna estiver indisponível ou não conseguir atender às cargas previstas.

Essa definição deve fazer parte do planejamento, e não ser improvisada somente quando ocorrer uma parada.

Produzir energia transforma também a responsabilidade de gestão

A principal mudança provocada pela geração interna não está apenas na origem da eletricidade. Está no fato de que uma parte do sistema energético passa a ser administrada dentro da própria fazenda.

O produtor deixa de acompanhar somente quanto consome e passa a observar também quanto produz, quando produz, onde utiliza e quais condições interferem nessa disponibilidade.

Isso exige registros, manutenção planejada e integração entre o funcionamento do sistema energético e a rotina leiteira.

Quando essas responsabilidades são incorporadas à gestão, a geração a biogás deixa de ser tratada como um equipamento isolado e passa a fazer parte do planejamento operacional da propriedade.

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